Livro Contos e Apólogos - Irmão X
- RICARDO CARVALHO
- 17 de set. de 2025
- 5 min de leitura
14 - A LIÇÃO DO DISCERNIMENTO
Finda a cena brutal, em que o povo pretendia lapidar a mulher infeliz, na raça pública, Pedro, que seguia o Senhor, de perto, interpelou-o, zelosamente:
- Mestre, desculpando os erros das mulheres que fogem ao ministério do lar, não estaremos oferecendo apoio à devassidão? Abrir os braços no espetáculo deprimente que acabamos de ver não será proteger o pecado?
Jesus meditou, meditou... e respondeu:
- Simão, seremos sempre julgados pela medida com que julgarmos os nossos semelhantes.
- Sim - clamou o apóstolo, irritado -, compreendo a caridade que nos deve afastar dos juízos errôneos, mas porventura conseguiremos viver sem discernir? Uma pecadora, trazida ao apedrejamento, não perturbará a tranqüilidade das famílias? Não representará um quadro de lama para as crianças e para os jovens? Não será uma excitação à prática do mal?
Ante as duras interrogações, o Messias observou, sereno:
- Quem poderá examinar agora o acontecimento, em toda a extensão dele? Sabemos, acaso, quantas lágrimas terá vertido essa desventurada mulher até à queda fatal no grande infortúnio? Quem terá dado a esse pobre coração feminino o primeiro impulso para o despenhadeiro? E quem sabe, Pedro, essa desditosa irmã terá sido arrastada à loucura, atendendo a desesperadoras necessidades?
O discípulo, contudo, no propósito de exalçar a justiça, acrescentou:
- De qualquer modo, a corrigenda é inadiável imperativo. Se ela nos merece compaixão e bondade, há então, noutros setores, o culpado ou os culpados que precisamos punir. Quem terá provocado a cena desagradável a que assistimos?
Geralmente, as mulheres desse naipe são reservadas e fogem à multidão... Que motivos teriam trazido essa infeliz ao clamor da praça?
Jesus sorriu, complacente, e tornou:
- Quem sabe a pobrezinha andaria à procura de assistência?
O pescador de Cafarnaum acentuou, contrariado:
- O responsável devia expiar semelhante delito. Sou contra a desordem e na gritaria que presenciamos estou convencido de que o cárcere e os açoites deveriam funcionar...
Nesse ponto de entendimento, velha mendiga que ouvia a conversação, caminhando vagarosamente, quase junto deles, exclamou para Simão, surpreendido:
- Galileu bondoso, herdeiro da fé vitoriosa de nossos pais, graças sejam dadas a Deus, nosso Poderoso Senhor! A mulher apedrejada é filha de minha irmã paralítica e cega. Moramos nas vizinhanças e vínhamos ao mercado em busca de alimento. Abeirávamo-nos daqui, quando fomos assaltadas por um rapaz que, depois de repelido por ela, em luta corpo a corpo, saiu indicá-la ao povo para a lapidação, simplesmente porque minha infeliz sobrinha, digna de melhor sorte, não tem tido até hoje uma vida regular... Ambas estamos feridas e, com dificuldade, tornaremos para a casa... Se é possível, galileu generoso, restabelece a verdade e faze a justiça!
- E onde está o miserável? - gritou Simão, enérgico, diante do Mestre, que o seguia, bondoso.
- Ali!... Ali!... - informou a velhinha, com júbilo de uma criança reconduzida repentinamente à alegria. E apontou uma casa de peregrinos, para onde o apóstolo se dirigiu, acompanhado de Jesus que o observava, sereno.
Por trás da antiga porta, escondia-se um homem, trêmulo de vergonha.
Pedro avançou de punhos cerrados, mas, a breves segundos, estacou, pálido e abatido.
O autor da cena triste era Efraim, filho de Jafar, pupilo de sua sogra e comensal de sua própria mesa.
Seguira o Messias com piedosa atitude, mas Pedro bem reconhecia agora que o irmão adotivo de sua mulher guardava intenção diferente.
Angustiado, em lágrimas de cólera e amargura, Simão adiantou-se para o Cristo, à maneira do menino necessitado de proteção, e bradou:
- Mestre, Mestre!... Que fazer?!...
Jesus, porém, acolheu-o amorosamente nos braços e murmurou: - Pedro, não julguemos para não sermos julgados. Aprendamos, contudo, a discernir.
REFLEXÃO
A história que nos é contada no texto A Lição do Discernimento pelo Irmão X tem como tema central a lição "NÃO JULGUEIS".
Encontramos no Evangelho, a lição em:
Mateus 7: 1-2:
1 Não julguem, para que vocês não sejam julgados.
2 Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês.
O início do texto é o fim de uma cena em que a povo, desejoso de JULGAR, como consta no própria narração "mulher infeliz", queria, como condenação desse julgamento, lapidá-la em praça pública, ou seja, apedrejá-la.
Pedro, notando que Jesus não a julgara o interpela indagando se, ao lhe desculpar os erros, não se estaria oferecendo apoio à devassidão, protegendo o pecado.
Então o Mestre traz a primeira lição:
"Simão, seremos sempre julgados pela medida com que julgarmos os nossos semelhantes."
Nesse instante, lembramo-no da Oração Dominical, onde Jesus, ensinando-nos a rezar, nos lembra de pedir ao Pai Celestial que "perdoe as nossas ofensa assim como nos perdoamos os nossos ofensores", cujo entendimento deve ser a rogativa de que Deus perdoe os nossos erros na mesma medida em que formos capazes de perdoar os erros dos nossos irmãos para conosco.
Pedro, ainda insistindo na necessidade de julgamento daquela infeliz mulher, entende o conselho de Jesus limitando-o à questão da necessidade de afastar juízos errôneos. E alicerça sua insistência no DISCERNIMENTO, ou seja, a capacidade de fazer juízo correto.
E então o querido Mestre traz-nos o que parece ser o cerne da questão, a chave a abrir as portas cerradas ao entendimento equivocado da necessidade de julgamento e esclarece:
"Quem poderá examinar agora o acontecimento, em toda a extensão dele?"
Porém, Pedro, ainda ansioso por fazer justiça, aceitando que a mulher mereceria sua compaixão, insiste que a "corrigenda é inadiável imperativo" e que culpados precisam ser punidos.
Neste momento aparece a velha mendiga que esclarece que a desafortunada mulher seria sua sobrinha, filha de sua irmã paralítica e que a pobrezinha teria sido assediada por um rapaz, conseguindo livrar-se dele após luta corporal e este, então, saiu a "indicá-la para lapidação".
Simão Pedro, neste instante, reorienta sua sede por justiça indagando: "Onde está o miserável?"
A velhinha então indicou a casa de peregrinos, onde o rapaz se encontraria.
Resoluto, Simão Pedro para lá se dirigiu juntamente com Jesus que "o obeservava, sereno".
E por detrás da porta, escondia-se um homem "trêmulo de vergonha" e, prestes a fazer o que acreditava ser justiça, Pedro "avançou de punhos cerrados, mas, a breves segundos, estacou, pálido e abatido."
Reconheceu ser o autor da cena trista Efraim, filho de Jafar, irmão adotivo de sua mulher.
Alguém que sentava-se em sua mesa costumeiramente. Alguém que ele conhecia. Sua ideia de justiça já não era a mesma.
Neste ponto de lição, evidencia-se o fato de que, imperfeito que somos, temos duas justiças. A justiça para aqueles que conhecemos e convivemos, e a justiça para com os desconhecidos.
E portanto, Pedro brada a Jesus: "Mestre, Mestre!... Que fazer?!..."
Neste instante, Jesus reitera a lição afirmando que não devemos julgar para não sermos julgados.
E finda referindo-se ao que Pedro mencionara anteriormente sobre o discernimento.
"Aprendamos, contudo, a discernir."
Interessante registrar que quando buscamos a etimologia da palavra discernir encontramos:
Dis (separação) + Cenere (perceber, ver nitidamente)
Discernir significa separar as coisas para podemos ver as coisas mais nitidamente.
Nesse sentido, e à luz dos ensinamentos do Evangelho e do que o Espiritismo nos traz de entendimento, devemos discernir o pecador do pecado. Combater o pecado e amar o pecador, reconhecendo nele um irmão necessitado, assim como somos necessitados do amor do Cristo, do amor de Deus e da compreensão do nosso semelhante para com os nossos erros.
Fica evidenciado ainda o porquê não devemos julgar, lição contida no questionamento que Jesus fizera a Pedro:
Quem poderá examinar agora o acontecimento, em toda a extensão dele?"
Em infinita limitação não conseguimos mensurar toda a extensão dos acontecimentos que vivenciamos. Menos ainda quando entra nessa equação as vidas passadas com todas as suas complicadas interações entre irmãos em erros sucessivos.
A lição está contida no questionamento crucial do querido Mestre, de quem poderia examinar qualquer acontecimento em toda a sua extensão? E discernindo, chegamos a inequívoca resposta:
Somente Deus.



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